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Quando somos injustos

12 de Fevereiro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger - professor doutor do Centro de Artes da UFPel

Vocês já perceberam as altas e baixas da bolsa de valores toda a vez que algum fato político importante está para acontecer? Assim foi durante as eleições que colocaram Lula, o primeiro representante de empregados e não de empregadores, no Planalto. A bolsa oscilava fazendo uma ameaça nem sempre discreta: se Lula vencer, os brasileiros irão se ferrar porque o mercado se vingará de alguma maneira. Os aplicadores da bolsa, quase todos milionários, rangiam os dentes, suavam pálidos e conclamavam pela defesa dos seus investimentos, isto é, dinheiro produzindo mais dinheiro. Somente para eles. Quem de nós alguma vez votou nos mandatários invisíveis da Bovespa? Mas eles querem nos obrigar, sob ameaças, a votar em candidatos adestrados a seu modus operandi: riqueza a qualquer preço, preferentemente gerada com o nosso suor.

Invertem a lógica de que deve ser a política a controlar a economia e não o contrário. Não sei exatamente quando perdemos o rumo em nossa longa trajetória, mas nossa participação política se esfumaça diante das chantagens do mercado financeiro. Acontece que adoramos gente branca, chique e rica, mesmo que seja sem vergonha. Esta é a salvaguarda de Cristiane Brasil e seus descamisados bombados. Há pouco, no julgamento do Lula pelo TRF4, a bolsa novamente se manifestou como um deus a serviço dos demônios do capital mais hediondo: se o ex-presidente for absolvido, brasileiros, preparem-se para o pior; se condenado, o dono da Havan e colecionador de processos contra si, estourará mil foguetes, os juízes, como crianças mimadas, defenderão a imoralidade do auxílio-moradia, a nova lei da previdência terá mais chances de ser aprovada e Michel Temer poderá passar os dias de carnaval com 60 serventes pagos com o dinheiro público. Lula errou ao tentar unir interesses tão contrários, associando-se à banda podre do país, que agora o esfaqueia pelas costas. No jogo do poder pelo poder, filhos assassinam os pais, parceiros de carteado roubam e atraiçoam.

Ou tudo não passará de um teatrinho? Lula resolveu ser mais um na quadrilha da troca de favores imorais, enterrando o projeto político que foi o melhor que o país já teve. Os interesses do mercado financeiro deram de goleada nos minutos finais. E agora, somos governados pela pior escória da política e da economia. Branca, chique e rica. Mas, pode piorar: basta que o Bolsonaro, o Huck, o Alckmin, a bancada evangélica, uma dobradinha Temer/Lula, os fascistas do MBL ou um golpe militar assuma o poder, por exemplo. Os analfabetos seremos nós. Norma, a empregada doméstica que trabalha aqui em casa, com ensino fundamental incompleto, não. Ela sabe de todas as coisas indispensáveis para viver modestamente; ela reconhece a importância das políticas sociais do governo do PT; ela sabe que o SUS é um suplício e que muitos médicos não cumprem o horário no posto; ela sabe que, enquanto sua filha estudar, ela receberá uns 60 pilas de bolsa família para assegurar a menina na escola; ela também sabe que a Lava-Jato e a autonomia do Ministério Público e da PF se devem às políticas do PT. Nunca na história do Brasil, tanta gente chique, rica, branca e ladra foi presa, comenta. Mas Norma não está nem aí para a Bovespa ou para os bitcoins; nem pensa em comprar na Havan. Não quer auxílio-moradia, quer somente uma casa descente para morar. Ela quer respeito, dignidade, justiça e uma vida boa. É nesse projeto político que deveríamos acreditar e colocar nossas forças.

 

Paulo Gaiger, (*) Prof. Dr. da UFPel, cantor, ator e diretor teatral.


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