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Reviravolta na Pediatria anos 70: Marshall Klaus

12 de Outubro de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, pediatra UCPel, Hospital Espírita, CAPS Porto, Ambulatório Saúde Mental prosasousa@gmail.com

Descobrimos com Marshall o interesse comum pela vida amorosa dos recém-nascidos num congresso em Buenos Aires, 1973. Detalhamos de parte a parte pesquisas que fazíamos e que mostravam a inutilidade dos berçários para bebês normais. Em 1976, ele e John Kennell publicaram Maternal Infant Bonding, livro onde incluíram os trabalhos que nosso grupo pediátrico da Católica acabara de publicar. O que se defende no texto foi um avanço em Pediatria: os bebês devem permanecer juntos das mães e a amamentação pode ser oferecida desde as primeiras horas, caminho oposto a jejuns e separações tradicionais. A UCPel e a Santa Casa, desde essa época, adotaram a nova visão e deixaram os berçários apenas para bebês doentes. Foi uma mudança epistemológica radical na concepção do que seja uma criança, deixando de vê-la como alguém isolado para percebê-la como um ser relacional desde a vida intrauterina, seguindo-se no puerpério imediato e por vida. Era o início da concepção do recém-nascido como ser completo, com prazeres, amores, agonias e sofrimentos próprios dos humanos. Uma revolução.

Esse querido amigo que agora perdemos, aos 90, foi um marco em meu percurso da Pediatria à Psicanálise, pois se Marshall abria uma porta, olhar esse novo horizonte com instrumentos freudianos fazia sentido. O bebê da Psicanálise não é o mesmo bebê da Pediatria, complementares, o resultado dessa proposta se enriquece, com lucro para o bebê e todo seu cortejo. Sua Majestade o Bebê, assim falou Freud sobre os cuidados requeridos ao bem-estar do recém-nascido, ninguém discorda.

Marshall foi além. Trabalhou pela utilização das doulas, palavra grega que significa quem assiste parturientes. Se empregadas na justa medida, teremos partos mais breves e menos cesarianas.
Marshall nos mostrou, ainda, a visão do Shakespeare sobre bebês: the baby figure of a giant mass of things to come, ressaltando um belo porvir para um bebê, se pastoreado à moda Klaus. Um pediatra guasca.
O pediatra Fernando Barros me passou o necrológio do Marshall no NYTimes, merecido.


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