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Tensão vazia

Em novo projeto, Christopher Nolan acerta no espetáculo técnico e peca no roteiro

12 de Agosto de 2017 - 22h00 Corrigir A + A -
Soldados aguardam pela salvação na praia de Dunkirk (Foto: Divulgação - DP)

Soldados aguardam pela salvação na praia de Dunkirk (Foto: Divulgação - DP)

Dunkirk é um filme de guerra diferente. Não apresenta um protagonista, praticamente dispensa os diálogos e oferece uma narrativa dividida em três perspectivas, sendo que não obedecem uma linha cronológica. A mente por trás do projeto é Christopher Nolan, cineasta que ficou conhecido por Amnésia, longa-metragem de 2000 que abusava da não-linearidade.

Depois de, nos anos seguintes, aventurar-se na trilogia de Batman, avançar pelo subconsciente em A origem e viajar pelo espaço em Interestelar, o cineasta apresenta mais um espetáculo visual. Desta vez, aborda um episódio verídico - e pouco conhecido - da Segunda Guerra Mundial.

O ano é 1940. Em uma operação bem-sucedida, o exército nazista promove o cerco de 400 mil homens, entre britânicos, franceses e belgas, na praia de Dunquerque (ou Dunkirk, conforme título original). Com a escassa chegada de navios de resgate, uma vez que são bombardeados no caminho, os soldados aguardam a morte numa paisagem fria e melancólica, o que Nolan sabe transparecer muito bem na tela.

Cada uma das linhas narrativas se passa em uma duração de tempo: terra (uma semana), mar (um dia) e ar (uma hora). O confronto bélico intercala os fatos - e os diferentes pontos de vista - de maneira inteligente, curiosa e algumas vezes confusa. Ainda assim, a ousada escolha confere o caráter inovador da obra.

Quem dita o ritmo do projeto é a trilha sonora tensa e impactante de Hans Zimer, construída a base de tic tac de relógios. Fica sob sua responsabilidade a emoção das cenas, das tentativas fracassadas de fuga, do sufoco constante. Com o mínimo de diálogos, o som sobe e toma conta da tela.

Há muito apuro técnico e estético, ambos impecáveis, mas a produção como um todo carece de empatia. Vários personagens dividem as atenções: Mark Rylance preso ao timão do barco, Kenneth Branagh impotente como o capitão, Tom Hardy irreconhecível com uma máscara no rosto e Fionn Whitehead sem expressão alguma. Estes pouco contribuem com a identificação do público. Harry Styles, mesmo com poucas falas, é o que mais chega perto.

A decisão de Nolan, que também assina o roteiro, foi justamente essa: dispensar protagonistas. Os atores em cena servem mais como número do que figuras humanas com as quais o público se importa. O diretor filmou uma situação, um momento histórico, o coletivo em guerra. Sua proposta revela-se bastante interessante, mas deixa uma sensação de entretenimento insensível, gélido, distante

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