Turfe

Let Me Free, o cavalo com alma de campeão

Rejeitado, doado, desacreditado, ele superou as desconfianças e entrou para a história do turfe gaúcho

15 de Abril de 2018 - 23h38 Corrigir A + A -
Garanhão entrou para a história do turfe gaúcho  (Foto: Divulgação - DP)

Garanhão entrou para a história do turfe gaúcho (Foto: Divulgação - DP)

Ao vencer o 81º Grande Prêmio Princesa do Sul, o garanhão Let Me Free, de nove anos, entrou para a história do turfe gaúcho por ser o primeiro bicampeão da prova mais tradicional do interior do país. O feito jamais conseguido, e que dificilmente será igualado, no entanto, é o ponto máximo de uma história marcada por rejeições, acidentes, descrédito, mas que teve seu rumo alterado pela dedicação, o carinho e o trabalho de uma família que há três gerações se dedica a preparar vencedores das pistas.

Nascido no interior de São Paulo, no Haras Louveira, pertencente à família Mesquita, proprietária do grupo de comunicação Estadão, Let Me Free foi criado no hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, onde começou carreira em 2012. O temperamento forte que dificultava o trato acabou fazendo com que fosse castrado ainda jovem. Ao longo de quatro anos, fez 44 apresentações no hipódromo carioca e obteve seis vitórias e 31 colocações (segundo, terceiro ou quarto lugares).

Em Pelotas, nos últimos três anos, Let Me Free tem pouco mais de dez apresentações e apenas duas vitórias: os GPs Princesa do Sul de 2017 e 2018. Isso basta para elevá-lo à categoria de lenda da Tablada e encher as cocheiras da família Ribeiro de orgulho e risadas.

Dado como pagamento
A chegada de Let Me Free a Pelotas é uma daquelas histórias capazes de fazer qualquer um acreditar na força do destino. No início de 2016, aos sete anos, o filho de Hilux e Sulamani por Midnight Tiger, foi dado por um treinador a um jóquei da Gávea, que por sua vez o entregou como pagamento do frete de outro cavalo até o hipódromo do Cristal, em Porto Alegre. Na capital gaúcha, foi novamente doado a outro treinador, que por acaso soube que um amigo de Pelotas, o treinador Adão Ribeiro, procurava um animal para inscrever no GP Princesa do Sul daquele ano.

"Ele vinha de quatro colocações em provas de 1.900, 2.000 e 2.100 metros, e tinha um bom retrospecto. Apesar da idade, não tinha lesões e estava em bela forma para disputar o Princesa", comenta Adão - que pagou R$ 2,5 mil por Let Me Free naquele verão.

Em fevereiro, ainda em Porto Alegre, um acidente inusitado afastou o futuro campeão das pistas: foi picado por uma aranha e desenvolveu uma forte inflamação nas patas dianteiras. Fora do clássico, mas já na Tablada, Let Me Free disputou algumas poucas provas, com colocações intermediárias, até que, no final de 2016, foi vendido por Adão para Rafael Trindade, um porteiro apaixonado por cavalos de corrida e que decidiu que o salário de R$ 1,2 mil mensais seria suficiente tanto para o sustento, como para manter o animal nas cocheiras da família Ribeiro, e prepará-lo para o 80º GP Princesa do Sul.

De pai para filho
Filho do treinador João Carlos Ribeiro, Adão cresceu na volta dos estábulos e da raia, começou a carreira como cavalariço até se tornar um dos treinadores mais vencedores do prado pelotense. Seguir seus passos foi a opção mais natural para o filho João Ribeiro, que hoje aos 38 anos é um dos poucos profissionais do Jockey Club de Pelotas a ter no currículo duas vitórias no principal clássico da entidade e o único a vencer a prova duas vezes com o mesmo animal. "Essas vitórias são o resultado da dedicação e do trabalho dispensados a ele nestes anos", diz João Ribeiro.

Ao falar em dedicação, se refere à rotina diária que começa às 5h45min e vai até as 18h30min e na qual Let Me Free recebe toda atenção e os melhores cuidados que a equipe pode dispensar a ele. Somente em comida, são 22 quilos diários de ração reforçada com complementos de vitamina de alto desempenho, suficientes para mantê-lo firme nos treinamentos que duram aproximadamente duas horas, divididas entre manhã e tarde. "Ele é um atleta, tem que treinar, se alimentar e descansar bem. Nosso trabalho aqui é ajudá-lo a manter a forma, tratar qualquer tipo de lesão ou dor muscular e prepará-lo para enfrentar as carreiras e os adversários", resume João.

Diariamente nas cocheiras, o proprietário diz confiar cegamente na dupla de treinadores e diz que seu papel é garantir as melhores condições de trabalho para todos e, claro, vibrar muito a cada título conquistado. "A sensação de vencer um clássico como o Princesa do Sul é inexplicável, só quem está ali e vive o momento consegue entender", emociona-se quase uma semana depois do triunfo histórico.

Parceria perfeita
O feito histórico conquistado na semana passada, no entanto, não seria possível sem a peça-chave, que, por essas coisas do destino (olha ele de novo passando pela cocheira dos Ribeiro), já andava na volta de Adão e João desde muito cedo: o jóquei Leonardo Gouvêa, 26 anos. "Tenho foto dele aqui com pouco mais de seis anos, segurando um cavalo nosso depois de um páreo", diverte-se João. "Ele foi o primeiro que me deixou montar um páreo oficial, quando ainda era aprendiz", confirma Gouvêa.

A condução de L. Gouvea durante o clássico foi motivo de elogios da crítica especializada do Rio Grande do Sul, e para o treinador representou a coroação de todo o trabalho. "Havia gente dizendo que o cavalo velho não daria nem para a saída, mas a gente sempre acreditou e o Leonardo mostrou isso, ao adotar uma estratégia perfeita na pista, segurando ele até a reta final e deixando ele fazer o que sabe nos últimos metros", analisa João.

Uma semana após a vitória épica, a emoção ainda pulsa nas cocheiras dos Ribeiro, faz a pele arrepiar e olhos se encherem de lágrimas a cada rememoração. A energia que gira por ali é tão positiva que o treinador bicampeão não titubeia ao arriscar o mais improvável dos palpites: "Quem sabe em 2019, Let Me Free não estará de novo na pista para tentar o tricampeonato do Princesa, com dez anos de idade? Eu não duvido nada deste cavalo", diz, enquanto serve o almoço do craque das pistas.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados