Arte

Não mais silenciadas

Exposição "Anônimas", de Nathalia Grill, aborda a visibilidade feminina

16 de Abril de 2018 - 11h30 Corrigir A + A -

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"Quantas artistas você conhece?" A pergunta repousa em uma prancheta com algumas folhas em branco na parede. A provocação é para que os visitantes da exposição Anônimas contribuam com nomes de mulheres artistas. Estes não são tão fáceis de lembrar quanto a profusão de "gênios da arte", todos homens, constantemente utilizados como referência em nosso cotidiano.

A partir de uma trajetória historicamente apagada, a artista visual Nathalia Grill busca discutir, em sua primeira mostra individual, o protagonismo feminino. O título, inclusive, denota a urgente questão social. Foi inspirado no desabafo proferido por Virginia Woolf: "Por muito tempo na história, 'anônimo' era uma mulher". A escritora versa, principalmente, sobre as mulheres na literatura, que demoraram séculos para poder assinar suas obras.

Para a jovem pelotense, a História da Arte é contada sob o ponto de vista dos vencedores, o que faz com que as mulheres fiquem fora dessa narrativa. Elas eram relegadas de produções artísticas respeitadas na época, como a pintura e a escultura. Restava-lhes apenas a artesania.

A partir de dados como este, Nathalia realizou em sua dissertação no Mestrado em Artes Visuais da UFPel uma revisitação histórica, em que observa como a figura feminina era representada na arte. Constata, assim, atribuições que oscilam entre musa e colaboradora, nunca como protagonista. A pesquisadora reforça a pergunta do início: "Onde estão as mulheres artistas? Certamente houve muitas, porém sem o devido reconhecimento".

A revisitação dissertativa fez com que Nathalia entrasse em contato com artistas de diferentes tempos, o que propiciou um mapeamento afetivo dessas mulheres anônimas. Em seu texto, destaca cinco delas: a pintora italiana Artemisia Gentileschi, a artista cubana Ana Mendieta, a brasileira Ana Teixeira, a excêntrica baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven e o coletivo Guerrilla Girls.

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REGISTROS ESTÉTICOS
Anônimas revela-se, portanto, o resultado de dois anos de produção artística para o Mestrado. São apresentadas peças gráficas, audiovisuais, fotográficas, artesanais e em outros suportes. Em cada uma das obras pulsam as questões feministas que tanto interessam a artista. 

O artesanato, prática "permitida" para as mulheres do passado, surge através de um casulo de malha vermelha que repousa no centro da galeria, preso ao teto. A vestimenta se faz presente em uma série de intervenções feitas em páginas arrancadas de publicações de arte. 

Esta lã vermelha é desenhada sobre as figuras femininas dos livros, cobrindo as ditas musas, como se as protegesse do olhar masculino que as retratou. "Vivemos um momento de maturação para pensar a representação do corpo feminino. Se olharmos as obras de Artemísia, é um tremendo contraste. Suas mulheres são fortes, não corpos dóceis", avalia a pelotense. 

O processo de intervenção também ocorre em outras obras clássicas, nas quais se sobrepõem conversas de WhatsApp e pesquisas do Google. No vídeo que integra a mostra, encontra-se o registro de performances realizadas pela artista. A ação mais emblemática foi quando colocou uma mesa e uma cadeira no calçadão de Pelotas para ouvir de mulheres as frases machistas que já escutaram.

ESPAÇO ATIVO
Durante o período de um mês, a exposição Anônimas deve receber visitas de instituições públicas locais que dialogam com as questões abordadas na exposição. Atividades extras no bistrô da Secult também devem ser propostas pela artista e pela curadora Carolina Clasen, para que sejam promovidas discussões sobre visibilidade feminina. Nathalia deseja que este seja um espaço de cura e de alento, não apenas restrito ao circuito artístico, mas a todas as mulheres.

O quê: exposição Anônimas, de Nathalia Grill
Quando: até o dia 13 de maio, de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
Onde: bistrô da Secult (Casarão 2 da praça Coronel Pedro Osório)
Entrada franca

 


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