Tragédia

Há dez anos, uma busca que não tem fim

Familiares de vítimas do voo JJ-3054 da TAM convivem até hoje com a saudade pela perda e aguardam, sem sucesso, que haja justiça com os responsáveis pelo acidente

17 de Julho de 2017 - 07h21 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

O acidente da Tam causou comoção em todo país (Foto: Agência Brasil)

O acidente da Tam causou comoção em todo país (Foto: Agência Brasil)

Três pelotenses estavam no voo JJ-3054 (Foto: Agência Brasil)

Três pelotenses estavam no voo JJ-3054 (Foto: Agência Brasil)

Todos os passageiros e mais 12 pessoas que estavam no prédio morreram (Foto: Agência Brasil)

Todos os passageiros e mais 12 pessoas que estavam no prédio morreram (Foto: Agência Brasil)

Quando o avião da TAM decolou do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, com direção a São Paulo, às 17h19min do dia 17 de julho de 2007, levava inúmeras histórias. Todas elas interrompidas após 1 hora e 29 minutos. Profissionais a trabalho, famílias inteiras em férias, passageiros em primeira viagem, todos foram vítimas do voo JJ-3054.

Ao todo, foram 199 mortos, entre pessoas a bordo do Airbus A320, funcionários que estavam no prédio da TAM Express com o qual a aeronave colidiu e no posto de gasolina ao lado. Nenhum dos 187 passageiros sobreviveu ao impacto e ao incêndio. Outras 13 pessoas que estavam próximas ficaram feridas. Uma tragédia que até hoje é apontada como o maior acidente aéreo da história da aviação brasileira.

Passados dez anos, pouca coisa mudou. Apesar dos esforços dos familiares em busca de punição aos responsáveis pela série de falhas que resultou no desastre, ninguém foi punido. Pior: recentemente, no dia 12 de junho, os acusados foram inocentados em julgamento em segunda instância no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo. Das 11 pessoas apontadas como tendo algum grau de culpa, conforme as investigações da Polícia Civil e o Ministério Público Estadual (MP-SP), somente três foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF): dois diretores da companhia aérea e uma diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Todos inocentados.

A decisão foi mais um choque para as famílias, que até hoje dividem a dor e as angústias através do contato que mantêm por meio da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Voo TAM JJ-3054 (Afavitam). "Os réus poderiam ter evitado a tragédia. Queríamos que a sentença fosse justa e que isso servisse de exemplo", lamenta o presidente da Afavitam, Dario Scott. Aos 54 anos, ele mesmo ainda luta para aprender a viver com a ausência da filha Thaís, que à época do acidente tinha 14 anos e viajava para aproveitar as férias com os avós na capital paulista. Diante da decisão da Justiça, acredita que mais do que nunca caberá aos familiares a tarefa de não deixar o episódio cair no esquecimento. "Não é simples, não é fácil lidar com isso. Mas é muito importante", afirma.

"Não adianta chorar mais"
Dentre os 187 passageiros no avião da TAM, havia cinco pessoas que moravam em Pelotas. Duas da mesma família: as irmãs Remy Victoria Möller, 78, e Deolinda Magaly Victoria da Fonseca, 67. Aposentadas, ambas se dedicavam ao trabalho voluntário na Cáritas Diocesana e voavam pela primeira vez. Iam acompanhar a sobrinha, Carmen Luísa Victoria da Fonseca, 51, a uma premiação que receberia em São Paulo por conta da atuação na ONG Aldeias Infantis S.O.S. de Porto Alegre. A programação incluía também uma visita ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte.

As filhas de Remy, Luna Möller Alves, 64, e Nilza Möller Vieira da Cunha, 61, dizem não se conformar até hoje com tamanha irresponsabilidade de governos, companhia aérea e agentes de fiscalização - o que causou a tragédia. Nos últimos dez anos, ambas dividem com o irmão Milton, que mora em Tramandaí, o peso de acompanhar investigações, audiências e processos envolvendo o voo JJ-3054. Assim como todas as demais famílias, ambas receberam indenização da TAM. Mas dizem que nada apaga os traumas. Nem mesmo o passar do tempo.

"Para nós é muito difícil deixar um filho nosso voar. Que segurança temos? Quando algum familiar vai viajar é algo terrível", diz Nilza. Desde aquele 17 de julho, as irmãs foram obrigadas a decolar muitas vezes de Porto Alegre e pousar na pista de Congonhas para participar das ações da Afavitam e lidar com a burocracia após a perda da mãe. "Depois da tragédia, sempre que andava de avião a primeira coisa que fazia era olhar os manetes. Queria ter a certeza de estarem funcionando. Aterrissar se tornou um drama", lembra Luna.

Agora, exatamente uma década após o acidente, ambas dizem estar afastadas até mesmo dos encontros realizados pela Associação. São informadas do andamento de processos e dos eventos por telefone ou e-mail, sem a expectativa de um dia ver a justiça sendo feita. "Este ano, dia 17, vou a uma missa, orar bastante e tentar aproveitar o restante do dia de alguma forma. Não adianta chorar mais", resigna-se Nilza.

Com a negativa do TRF3 em condenar os acusados pelo acidente na ação movida pelo MPF, a Afavitam não descarta a hipótese de ela própria recorrer à Justiça. A decisão, no entanto, caberá aos familiares, que nesta semana se encontrarão novamente. Para homenagear as vítimas. E lamentar a impunidade.

O acidente
- Ao tentar pousar no Aeroporto de Congonhas, o avião Airbus A320, que saiu de Porto Alegre, não conseguiu frear na pista, atravessou a avenida Washington Luís e colidiu contra um prédio da TAM Express e um posto de gasolina.

- Todos os 187 passageiros morreram, além de 12 pessoas que estavam no prédio e na abastecedora. Outras 13 pessoas ficaram feridas.

- De acordo com o relatório divulgado em 2009 pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Cenipa) da Força Aérea Brasileira (FAB), o acidente foi causado por um erro do piloto, que configurou erradamente os manetes de controle da aeronave. Foi apontada ainda falta de estrutura no aeroporto, pois a pista não apresentava ranhuras (groovings) que impedissem o avião de derrapar em dias de chuva, como naquela ocasião.

- O Ministério Público concluiu ainda que a Anac deveria ter fechado o aeroporto, devido às condições climáticas, e que a Infraero não poderia ter liberado a pista sem as ranhuras.

- A pista havia passado por reformas dias antes do acidente, porém sem as ranhuras. Segundo a Infraero, isso levaria mais 30 dias, prazo muito grande diante do cenário de apagão aéreo de 2006 que ainda se refletia nos aeroportos.


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